segunda-feira, 2 de novembro de 2020

O latim e o mundo, o grego e a erudição

"Os juramentos de Estrasburgo demonstram esse modo de ver. Na versão românica começam assim: 'pro deo amor et christian poblo et nostro comun salvament'. Isto muito se aproxima do latim. Ao contrário, em alto alemão antigo: 'in godes minna ind in thes christianes folches ind unser bedhero gehaltnissi'... É um mundo linguístico inteiramente diverso. O romano pôde ainda por muito tempo valer-se de um latim mais ou menos corrompido e, partindo daí, familiarizar-se com a latinidade correta. O germano, por seu lado, teve que aprender o latim radicalmente como língua estrangeira - e aprendia-o logo corretamente. Por volta de 700, escreve-se na Inglaterra um latim admiravelmente puro, ao passo que na França reina a decadência. Mesmo grandes eruditos italianos podiam cometer deslizes gramaticais, de que riam os monges alemães. Tal é o caso de Gunzo de Novara, que em 965 chegou à Alemanha, no séquito de Oto I, e, em conversa com os monges em St. Gallen, declinou um caso erradamente. Justificou-se, em carta, de que fora acusado injustamente de ignorância gramatical, 'embora às vezes eu seja estorvado pelo uso de nossa língua popular, muito próxima do latim'".

(E. Curtius, Literatura Europeia e Idade Média Latina)

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Mosteiro de St. Gallen

A carta de Gunzo de Novara (impressa na Patrologia Latina, vol. 136) pretende ser uma aula de erudição. Tentando justificar seu erro gramatical, parece ele ter dispendido muito do tempo de sua vida em encontrar situações em que respeitáveis autores latinos tivessem também empregado uma declinação onde outra seria inesperada. Sua carta é, por assim dizer, uma compilação de situações excepcionais, mas interessantes.
Invehit in monachum S. Galli, qui quod grammaticaliter in casu quodam errasset, ipsum contemptui habuerat, ostenditque se et in grammatica et in aliis liberalibus studiis eruditum

(Enviou <a epístula> contra um monge de St. Gallen que, como <o autor> houvesse errado um caso gramatical, desprezara-o, mostrando-se  <o autor> erudito em gramática e em outras artes liberais)

Pela leitura da carta, parece, de fato, que o autor seria um homem de grande erudição. Ele chega, inclusive, a citar um trecho de Homero em grego! Como, no entanto, tinha ele acesso ao grego, numa época em que essa língua já era tão pouco compreendida na Europa? O caso é uma citação tirada à Eneida de Virgílio. O poeta, em vez de empregar o genitivo "Latagi", utiliza o acusativo "Latagum": "Latagum saxo atque ingenti fragmine montis / Occupat os faciemque adversam". Gunzo, porém, não se dá por satisfeito em notar isto, mas fornece a fonte de inspiração do poeta. Segundo o monge, 

Quae figura apud Latinos rarissime, apud Homerum frequens (invenitur, ut est iliud Ecrousen Achillen ton poda, id est percussit Achillem pedem).

Esta figura, raríssima entre os latinos, é frequente em Homero, encontrando-se, por exemplo, em  ἔκρουσεν Αχιλλέα τόν πόδα, isto é, feriu Aquiles no pé.

É nessa citação, que fez para emular a mais alta erudição, que suas pretensões caem por terra. Por mais que o acusativo de relação, de fato, exista em grego e seja comum em Homero, a verdade é que o trecho "citado" não consta em Homero! Estranha-se também o uso do acusativo Achillen - que seria o acusativo regular se Aquiles fosse substantivo das duas primeiras declinações em grego (-n), o que não é o caso; a forma correta é Αχιλλέα, isto é, Achillea, de terceira declinação (-a). A recolha do trecho não se deu, portanto, da leitura de um trecho original, mas de uma anotação que Serviano fizera aos seus comentários ao trecho na Eneida: é provável que o monge tenha inspecionado a obra para encontrar situações excepcionais de emprego das declinações, mas, sem conhecer o grego (e, talvez, a própria tradição latina com profundidade), não compreendeu que o acusativo de relação é uma das funções do acusativo. Serviano, ao comentar o Livro X da Eneida, diz:

698. LATAGUM OCCUPAT OS pro "Latagi occupat os". et est Graeca figura, in Homero frequens, ut si dicas ἔκρουσεν Αχιλλέα τόν πόδα, id est Achillem percussit pedem pro percussit Achillis pedem.

(698. LATAGUM OCCUPAT OS em vez de "Latagi occupat os". É figura grega, frequente em Homero, como se dissesses  ἔκρουσεν Αχιλλέα τόν πόδα, isto é, feriu Aquiles quanto ao pé, em vez de feriu o pé de Aquiles).

Encontram-se aqui e acolá algumas referências a essa situação. A epístola interessou aos estudos históricos especialmente pela possibilidade de desafiar a ideia de que o grego não era mais conhecido dos autores latinos nesse período da Idade Média. Porém, se tinha a potencialidade de desafiar essa concepção, fato é que, após a verificação das fontes, vê-se que esse monge não apenas não dominava os rudimentos do grego - tornando regular uma declinação irregular -, mas também que essa língua exercia verdadeiro fascínio, pois parecia oferecer a chave para a compreensão dos pontos mais complexos da gramática latina.

Moral da história: na ânsia de se vangloriar de sua suposta erudição, o monge mostrou dissertar sobre o que pouco sabia. Por mais que a carta valha como espécie de estudo gramatical, põe-se em xeque a sua suposta erudição. Talvez o efeito que queria - tirar a desforra com os colegas de St. Gallen - tenha funcionado, não se sabe; mas, para a posteridade, ficou legada a convicção de que teria sido melhor deixar o grego para lá, e contentar-se com o latim e o alemão antigo.

domingo, 1 de novembro de 2020

O Imperador vai bem?

Com a proximidade das eleições, lembrei-me de uma anedota que vi contada por Antonio Candido em uma entrevista. Eram idos de 1940 e poucos, e Cândido estava em Bofete, SP, realizando a pesquisa de campo que embasaria seu futuro Parceiros do Rio Bonito, hoje clássico da antropologia brasileira. Então, encontrou um desses caipiras bem velhos e travou o seguinte diálogo, com o caipira lhe perguntando:

- O imperador vai bem?
- Vai muito bem sim.
- Mas não é mais aquele veião de barba, é?
- Não, agora é um novo chamado Dutra.
- Ah bom!

A. Cândido em Bofete (SP) nos anos 40
A. Candido em Bofete (SP) nos anos 40

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

O que é o Poeta?

"κοῦφον γὰρ χρῆμα ποιητής ἐστιν καὶ πτηνὸν καὶ ἱερόν, καὶ οὐ πρότερον οἷός τε ποιεῖν πρὶν ἂν ἔνθεός τε γένηται καὶ ἔκφρων καὶ ὁ νοῦς μηκέτι ἐν αὐτῷ ἐνῇ: ἕως δ᾽ ἂν τουτὶ ἔχῃ τὸ κτῆμα, ἀδύνατος πᾶς ποιεῖν ἄνθρωπός ἐστιν καὶ χρησμῳδεῖν".

"O poeta é, pois, algo leve, alado e sagrado, e, antes de de se tornar inspirado divinamente, ficando fora de si, sem razão a governá-lo, nada pode criar. Enquanto não dispõe desse dom, nenhum homem é capaz de criar e de dizer oráculos"
(Platão, Íon, 534b)




quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Meio ou meia?

Você também aprendeu que "meio" não flexiona em português, né? Pois é. A tradição literária portuguesa admite essa flexão. A regra contrária parece ser invenção dos gramáticos considerando obrigatório o que era opcional. Há exemplos de Camões, Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco, Castilho e Eça de Queirós do uso flexionado:

  • “Uns caem meios mortos, e outros vão” (Lusíadas, III, 50)
  • "A cabeça do Rubião meia inclinada" (MA, QB)
  • "Casou meia defunta" (MA, VH)
  • "A boca meia aberta" (MA, VH)
  • "A mesma mulher, sempre nua ou meia despida" (EQ, CS)
  • "Cinzeiros com cigarros meios fumados" (José Régio, História das Mulheres)
  • "Cadáveres meios enterrados nas ruínas" (CCB, O judeu)
  • "A carne dos cavalos meia crua" (AH)
  • “Estes homens rudes combatiam meios nus.” (AH)
  • "Os outros corpos estão meios podres" (Pe. Manuel Bernardes)
  • "Deixando a porta meia aberta" (Feliciano de Castilho)
  • "O outro, de cara meia triste" (M. de Andrade, Candinha)
  • "Meia inquieta, adormeceu" (M. Andrade, Belazarte).
[Por vezes, algumas dessas frases foram "corrigidas" em edições modernas].



quarta-feira, 15 de abril de 2020

Fantasmas e o direito civil

Nós, que nascemos no séc. XX, pensamos que a colonização da religião sobre o direito se limita a áreas de maior influência do direito público, como o direito constitucional, administrativo ou o direito de família. Mas isso é um engano grave: também o direito contratual era afetado por isso. Vejam essa tese de um jurista importantíssimo do jusracionalismo, Christian Thomasius.






O título é: "Da impossibilidade de rescisão do contrato de locação por medo de fantasmas" (!!!). O subtítulo em alemão é um pouco diferente: "O medo de fantasmas rompe a locação?". A obra compila muitos relatos de pessoas que alugaram casas e que resolveram rescindir o contrato de locação por terem visto... fantasmas! Depois de uma longa discussão do que são fantasmas - assunto em que curiosamente abundam autores ibéricos, rs - o autor conclui pela inexistência desse direito. Ao que parece, o tema era bastante discutido: alguns anos antes, em 1711, houve um doutorado sobre o mesmo tema apresentado por um J. I. Hamilton em Halle. Thomasius presidiu a banca. Provavelmente, o tema calhou bem no seu projeto de direito racional.


terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Ah, os "scholars"!

"É um vício profissional de scholars considerar que a mera acumulação de volumes e artigos faz progredir a compreensão, quando na verdade serve apenas para encher bibliotecas".

(Eric Hobsbawn, na Introdução à obra Formações Econômicas Pré-Capitalistas, de K. Marx, p. 23)



quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Acorda, Senhor!

"Exsurge; quare obdormis, Domine? Exsurge, et ne repellas in finem. Quare faciem tuam avertis? Oblivisceris inopiæ nostræ et tribulationis nostræ? Quoniam humiliata est in pulvere anima nostra; conglutinatus est in terra venter noster. Exsurge, Domine, adjuva nos, et redime nos propter nomen tuum".

"ἐξεγέρθητι ἵνα τί ὑπνοῗς κύριε; ἀνάστηθι καὶ μὴ ἀπώσῃ εἰς τέλος. ἵνα τί τὸ πρόσωπόν σου ἀποστρέφεις; ἐπιλανθάνῃ τῆς πτωχείας ἡμῶν καὶ τῆς θλίψεως ἡμῶν. ὅτι ἐταπεινώθη εἰς χοῦν ἡ ψυχὴ ἡμῶν, ἐκολλήθη εἰς γῆν ἡ γαστὴρ ἡμῶν. ἀνάστα κύριε βοήθησον ἡμῗν καὶ λύτρωσαι ἡμᾶς ἕνεκεν τοῦ ὀνόματός σου"
(Salmo 43)



quarta-feira, 10 de julho de 2019

As impurezas da forma

Para quem acha que os poetas modernistas não prestam por não darem tanto valor à forma, deixo um aviso: às vezes, eles até dão; o leitor é que não percebe. O leitor que vai voraz atrás de um soneto, uma redondilha, um alexandrino, sai com as mãos abanando; não encontra as formas que já conhece de antemão. É preciso ter paciência com o texto, até que ele revele a profunda pesquisa métrica realizada pelo seu autor. O texto modernista é infenso ao saber prévio do leitor.
Abaixo, a escansão de um poema de Drummond, publicado no Alguma Poesia (1930), intitulado Romaria. Reparem que toda a escansão é feita com base em versos da métrica antiga - dátilos e troqueus; reparem, ainda, que cada metro revela uma voz, gerando uma polifonia que combina tema e métrica.